História do Arroio Grande

DADOS HISTÓRICOS DO MUNICÍPIO


HISTÓRIA DO ARROIO GRANDE*


Elizandro R. de Rodrigues** 


A formação e povoamento do território que hoje compreende o Arroio Grande remonta ao final do Século XVIII, ocasião em que foram concedidas sesmarias pela Coroa Portuguesa a militares e famílias advindas do Arquipélago dos Açores, principalmente. Anteriormente, o território pertencia a Rio Grande e, depois da assinatura de tratados entre Portugal e Espanha, em especial o Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, começou então a doação de terras ao norte e, posteriormente, ao sul do Rio Piratini – local onde está situado o Município. Dois sesmeiros tiveram importante participação na colonização e ocupação do território onde hoje se encontra o Município, a saber, Manuel Jerônimo de Souza e Francisco Soares Louzada.

Com o passar do tempo, começou a formar-se um povoado às margens do arroio Grande. Nas palavras de José Paulo Ramos da Silveira, “almejando maior independência administrativa, a população de Arroio Grande escreveu ao Bispo do Rio de Janeiro, sob cuja jurisdição estava toda metade sul do País, pedindo a criação de uma nova freguesia destacada da de Rio Grande. (...) O Bispo, no entanto, em junho de 1811, deu preferência à localização da sede da nova freguesia na ‘capela denominada da Guarda da Lagoa e não o oratório da Fazenda de Manoel Jeronymo [de Souza]’, considerando principalmente a localização junto ao rio, já que rios eram as vias preferenciais de transporte na época e, claro, levando em conta a vantagem geopolítica de marcar a fronteira mais ao sul. E, assim, ironicamente, foi criada a freguesia chamada inicialmente ‘do Arroio Grande’, com sede em... Jaguarão!” (2018, p. 37). Dessa forma, houve uma demora no processo emancipação, haja vista que a sede ficou situada em local que não o de onde se formou o povoado.

Poucos anos depois, houve o momento em que se iniciou a construção de uma capela por provisão, em 1815, cuja confirmação ocorreu em 1821, por D. João VI. A capela foi construída em um terreno à margem esquerda do arroio Grande, doado por Laureana Maria da Silveira (*), primeira esposa de Souza Gusmão, em testamento datado de 1º de setembro de 1812, esta que veio a falecer antes da construção da capela, em 1º de abril de 1814. Inicialmente, a doação do terreno era para que nele fosse feito um oratório, uma vez que já havia uma capela na outra margem do arroio; contudo, nas palavras de Carla Hernandez Silveira Machado, “o conflito existente entre José Batista de Carvalho e Manoel Dutra pela propriedade do terreno onde estava erguida a capela, e a má condição da mesma, suscitou na população o desejo de que ela fosse construída em outro lugar” (2014, p. 2). Conforme o escritor Álvaro Caetano, o movimento de doação se deu espontaneamente, sendo que o terreno era de criação de gado.

Durante a Revolução Farroupilha, Arroio Grande foi palco do “Combate do Chasqueiro”, penúltimo conflito armado, em que veio a óbito Joaquim Teixeira Nunes, o “Coronel Gavião”, líder dos Lanceiros Negros, o qual foi sepultado, posteriormente, no Adro da Igreja Matriz de Arroio Grande (**). Findada a guerra dos farrapos, tempos depois, em 1846, o povoado foi elevado a Freguesia e Curato de Nossa Senhora da Graça de Arroio Grande e, em 1866, a freguesia passou a constituir o 4º Distrito de Jaguarão. Muitos dos elementos que resgatam a memória dos primeiros povoadores do Arroio Grande permanecem presentes até os dias atuais, e podem ser observados na formação dos quarteirões e traçado das ruas, bem como no estilo arquitetônico do casario antigo da cidade; o prédio que sediou a Primeira Câmara Municipal, bem como outras propriedades contemporâneas a este, são exemplos a serem mencionados. Muito da cultura açoriana – e por assim dizer portuguesa – está presente neles.

A data de comemoração do aniversário da cidade coincide com a data de promulgação da Lei Provincial nº 843, que emancipou a então Freguesia de Nossa Senhora da Graça de Arroio Grande e elevou-a à condição de Vila, em 24 de março de 1873. Em 24 de maio daquele ano, foi realizado o pleito para eleger os primeiros Vereadores da nova Vila, cujos sete eleitos foram empossados em 22 de dezembro de 1873 pelo Presidente da Câmara de Jaguarão, Comendador José Maria de Azevedo: são eles Dr. Agostinho da Silva Campos, Thomaz Bento da Silva, José Maria Baptista, Clarimundo Gonçalves, Aníbal José de Souza, Vicente Ignácio Ferreira e Manoel José Ferreira. Dentre eles, foi eleito o Dr. Agostinho da Silva Campos o primeiro Presidente da Câmara.

Da emancipação até a Proclamação da República, em 1889, a Câmara Municipal exercia o papel administrativo principal. Importantes ações foram realizadas nas primeiras legislaturas, dentre elas, a inauguração da estação telegráfica, em 1874 (***); o início do trabalho de demarcação dos limites municipais, quando foram realizadas medições de boa parte das propriedades rurais daquela época; as providências quanto às delimitações das estradas municipais, assim como os primeiros incentivos à agropecuária local; organização do primeiro mapa da Vila de Arroio Grande, elaborado pelo Dr. Menandro Rodrigues Fontes (CORREA, 2004, p. 25). Estes e outros feitos colaboraram para a estruturação e administração da nova vila emancipada que ora surgira e que em breve se tornaria cidade.

Na divisão administrativa de 1911, Arroio Grande compõe-se dos Distritos da Sede e de Santa Isabel dos Canudos. No Recenseamento Geral de 1920, aparece integrado pelos distritos de Arroio Grande, Estação de Piratini e Bretanhas. Nas divisões territoriais de 1936 e 1937, os distritos de Arroio Grande, Costa do Arroio Grande/Paraíso, Santa Isabel e Chasqueiro, fazem parte do Município, sendo que no quadro anexo ao Decreto Estadual nº 7.199, de 31 de março de 1938, as sedes dos três últimos não possuem categoria de vila. Decorrido certo tempo, em 1950, Arroio Grande é formado do Distrito-sede, do Distrito de Açoriano e de Olimpo. Pela Lei Municipal nº 125, de 14 de novembro de 1952, na gestão do então Prefeito Aimone Soares Carriconde, foi alterada a denominação do Distrito de Açoriano para Santa Isabel do Sul. A divisão atual do Município decorre da Lei Municipal nº 441, de 25 de julho de 1961, na gestão do Prefeito Municipal Edgar Dutra Lisboa, em que foram criados os Distritos de Mauá e Pedreiras, passando o Município a figurar com Arroio Grande (sede), Mauá, Pedreiras e Santa Isabel do Sul. Atualmente, Arroio Grande se firma como um Município com orçamento estimado em R$ 66 milhões de reais, cuja economia é baseada no cultivo e beneficiamento de grãos, bem como na pecuária, além de outras atividades paralelas.

Ao longo do tempo, muitas personalidades ajudaram a compor a história desta cidade, a saber: Padre Thomaz de Souza Siqueira e Silva (Primeiro Presidente da Câmara de Jaguarão; ativista junto às primeiras tratativas de criação da Freguesia do Arroio Grande), Irineu Evangelista de Sousa (importante comerciante e industrialista brasileiro), Franklin de Magalhães (Secretário da Primeira Câmara Municipal), Dr. Antônio Monteiro Alves (Médico humanitário do século XIX oriundo da Bahia), Herculano de Freitas (Jurista brasileiro e Ex- Ministro do STF), Severo de Castro Feijó (Delegado de Polícia e Ex-Intendente Municipal), Mário Maciel Costa (Ex-Intendente Municipal), Leonel Muniz Fagundes (Poeta e Notário local), Zeca Maciel (Farmacêutico e um dos proprietários da ‘Pharmacia Maciel’), Dionísio de Magalhães (Médico humanitário do século XX e Ex-Prefeito Municipal), Alice Collaço das Neves (Educadora e autora da letra do Hino do Município), Aimone Soares Carriconde (Advogado, Ex-Intendente e Ex-Prefeito Municipal), Alvião Lúcio (construtor local). Eles e tantos outros vultos da história municipal, a seu modo e tempo, colaboraram para a formação o Arroio Grande que hoje se conhece; por esta razão, merecem toda reverência e consideração. Mas a história continua; ela é um movimento permanente. Ela é a consciência do que fomos instigando a mudar e transformar o que somos. Assim, convida-se a todos para que sejam espectadores e, sobretudo, protagonistas da história do Arroio Grande.

* Texto que tem por base o colóquio realizado em Sessão Solene da Câmara Municipal, comemorativa aos 146 anos de emancipação política de Arroio Grande, no Centro de Cultura Basílio Conceição, em 30.03.2019, relato este publicado posteriormente no Jornal Correio do Sul (Arroio Grande/RS), em 12.04.2019.
** Elizandro R. de Rodrigues é graduado em Letras (Português/Espanhol) e Literaturas; Especialista em Culturas, Cidades e Fronteiras e Pós-graduado em Metodologia do Ensino de Línguas e Literaturas, todos os títulos pela UNIPAMPA. Autor do livro “DO ARROIO GRANDE PARA O MUNDO”. Atua há 10 anos na área da pesquisa independente em patrimônio histórico e cultural.

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(*) Os dados acerca de Laureana Maria da Silveira decorrem de pesquisa realizada por Carla Hernandez Silveira Machado, publicada no grupo ‘Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande/RS’ (Facebook).

(**) Os dados acerca de Joaquim Teixeira Nunes, o “Coronel Gavião”, bem como o seu local de sepultamento, foram levantados mediante as publicações realizadas no grupo ‘Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande/RS’ (Facebook), bem como consulta à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, a saber, o Jornal ‘O Imparcial’, 30.11.1844, p. 1.

(***) Conforme notícia divulgada no “Diário de Belém”, 30 de dezembro de 1874, p. 2. Acervo: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

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Referências

CAETANO, Álvaro. O Município de Arroio Grande. São Lourenço do Sul/RS: Survai Edições, 2008.

CORRÊA, Flávia Soares da Conceição. TEMPOS [Revista]. Ed. GEPEC [Grupo de Estudos e Educacionais e Culturais] e Prefeitura Municipal de Arroio Grande. Pelotas/RS: Gráfica do CEFET, março de 2004.

História | Prefeitura Municipal [sítio oficial]. Disponível em:

MACHADO, Carla Hernandez Silveira. A Capela [Parte 1]. In: JORNAL CORREIO DO SUL, Arroio Grande/RS, 24 mar. 2014.

RODRIGUES, Elizandro Rodrigues de. Relato sobre a História e Formação do Arroio Grande. In: JORNAL CORREIO DO SUL, Arroio Grande/RS, 12 abr. 2019.

SILVEIRA, José Paulo Ramos da. O Pioneiro. In: BITTENCOURT JR, Pedro Jaime (Org.). 14 Personagens e 5 Vultos Históricos (e outras personalidades e tipos populares) do Arroio Grande. Arroio Grande/RS: Prefeitura Municipal de Arroio Grande / Gráfica Palloti, 2018.
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